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Vivendo o luto no distanciamento social

Por Virgínia Taketani

Entre as   analogias para comparar o processo de luto que conheço, uma das que mais tenho afinidade é a do jogo de tabuleiro. Após a perda de nossos companheiros somos convidados diariamente a rolar os dados. Se tivermos sorte avançamos umas casas, mas também podemos ficar parados ou até mesmo termos que retroceder algumas casas, sabendo que nosso objetivo é alcançar a linha de chegada onde está escrito “sobrevivi”.

Estávamos todos juntos nesse tabuleiro quando de repente entra no cenário uma nova regra para o jogo. Batizaram-na de COVID-19, nos mandaram retroceder 3 casas e ficar parados por 5 rodadas.

E assim, o isolamento social começa a impactar a vida de viúvas e viúvos, bem como de outros enlutados. Trancados em nossas casas o tempo ganha uma dimensão muito maior. Os sentimentos se potencializam e podem ser visitados e revisitados com muito mais frequência. Entrar em distanciamento para quem estava sofrendo previamente tem um peso maior.

Como fugir da dor se temos todo o tempo do mundo para pensar nela? Como não pensar no risco de pegarmos o vírus?

Sim, para além de tudo o que estamos vivendo, ainda temos que nos confrontar com nossa própria impermanência. Quem de nós já não pensou nisso? O luto não nos separa do resto da humanidade. O tabuleiro do luto está agora navegando no mesmo oceano e estamos todos em risco, queiramos ou não. E o medo está permeando tudo ao nosso redor.

Tivemos que agregar outras preocupações à nossa vida. O luto não nos protege do desemprego, do fechamento de nossos negócios, da perda de pessoas queridas, da crise econômica e de tudo o que veio como consequência da pandemia.  Isso gera uma sobreposição de medos.

A todo momento escutamos que a vida nunca mais será a mesma depois da pandemia. Mas, nós já tínhamos consciência de que a nossa vida tinha mudado para sempre. Só não estávamos preparados para, além disso, ainda ter que mudar nossa relação com o mundo para sempre.

Vivíamos com saudade da nossa vida perdida e agora sentimos saudades do mundo lá fora também. A reclusão, que às vezes era voluntária, agora que é mandatória, nos faz sentir falta do contato com as pessoas. Colocávamos a possibilidade de felicidade no futuro e agora temos que redimensionar o futuro, já que ele pode não chegar. Olhar para a morte dá um significado mais importante para a vida. O desafio agora é ver o presente como um presente, apesar da dor e criar uma esperança para cada dia que começa, como aprendi com o Psicólogo Rodrigo Luz. Isso agora é mais importante do que nunca.

O isolamento nos faz perceber que precisamos de muito pouco para ser realmente felizes, mesmo na dor. Pode ser o abraço das pessoas que amamos, o sorriso de um filho, o carinho dos pais, um telefonema inesperado, uma mensagem afetuosa que chega no WhatsApp, um bom livro, uma bela música, o cuidado com as plantas, com a casa, uma comida gostosa que fazemos para a família, o contato com aquele amigo que não vemos há anos e sim, especialmente, a memória dos momentos incríveis que tivemos ao lado de nossos maridos ou esposas.

Nesses tempos de distanciamento estamos todos nos reinventando e descobrindo novas formas de relacionamento à distância. Reuniões entre amigos e familiares por aplicativos estão se tornando cada vez mais comuns e frequentes. Nunca estivemos tão longe e tão perto das pessoas como agora. Da mesma forma, inúmeras lives, cursos, visitas abertas à museus ou canais abertos na TV estão a nossa disposição. Podemos nos apropriar dessas possibilidades para preencher esse tempo e focar nelas ao invés de mergulhar ainda mais no universo da dor. E se ela estiver machucando muito, compartilhar esse sentimento com aquelas pessoas especiais que são capazes de entendê-la também ajudará muito. Ficar em distanciamento não significa ficar em isolamento.

Enfim, estamos diante da chance de nos reconciliar com a vida, mesmo feridos pela dor da perda de nossos amores. Isso exigirá muito mais de nós do que dos outros. Ao perdermos nossos companheiros, perdemos a nossa referência com mundo de segurança e agora temos que reconstruir essa relação no escuro, pois ninguém sabe que mundo será esse. O desafio é grande, exige mais força de vontade ainda, mas as ferramentas estão postas na mesa. Cabe a nós a escolha. Mas, nunca se esqueçam que existe muito amor, mesmo na dor.

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