Acolhimento a viúvas e viúvos: seg. a sexta das 08h às 12h
Rua Barão de Paranapanema, n. 146, Bloco B, Sala 62, Bosque, Campinas - SP

Dia Internacional da Viúva

Por Virgínia Taketani

Dia Internacional da Viúva! Quem em sã consciência gostaria de ser homenageado ou de comemorar essa data? Quem gostaria de estar separado do resto da sociedade, num grupo que ninguém entende e todo mundo julga?

O objetivo da criação dessa data foi conscientizar a população do sofrimento das mulheres viúvas, lembrando das crueldades cometidas contra elas, e obrigar os países a prestar atenção à situação das viúvas e dos seus filhos.

Há um Dia Internacional da Viúva simplesmente porque morte e sofrimento são assuntos praticamente proibidos e muito mal compreendidos em nossa sociedade e porque as mulheres, mesmo em pleno século 21 ainda sofrem discriminação. Uma viúva ainda é vista como um pacote porque arrasta consigo uma família.

Dito isto, vale contar que conheci pessoas incríveis nesse grupo. Mulheres que de uma hora para outra ou depois de um longo período de doença viram-se privadas da companhia de seu grande amor. Pessoas que tiveram suas vidas viradas de cabeça para baixo e foram obrigadas, no meio da dor mais excruciante, a assumir papéis que antes era de seus parceiros. Mães que deram à luz seus bebês sem seus parceiros, mulheres que tiveram que assumir os negócios do marido, que tiveram que se reinventar para prover a família e outras que passaram a ter que conviver com o silêncio, o vazio e a solidão.

A vida que nos foi imposta nos tornou pessoas fortes, capazes de suportar essa dor terrível e nos unimos, ouvindo umas à outras, aprendendo com as que estavam mais longe nesse doloroso processo e servindo de exemplo para aquelas que estavam apenas começando. Nos conhecemos pela dor e nos unimos pelo amor. Descobrimos que somos como os bambus que vergam sob o vento, mas não se partem.

A palavra viuvez carrega o fardo da perda dos nossos companheiros, da saudade que não passa, dos sonhos interrompidos, das responsabilidades que não podem mais ser compartilhadas, das lágrimas vertidas e das lágrimas engolidas. Mas, ela também é o nosso estado civil. Não somos mais casadas, nem solteiras, visto que tivemos um passado e uma história de amor que não preenche cadastros. Mas, como dói ter que escrevê-la!

Depois de atravessar esse deserto, descobrimos que nem a doença, nem a morte súbita nos mandam recados avisando que vão chegar. E quando chegam não deixam pedra sobre pedra. Assim, numa sociedade que não fala de morte nos vemos arrastados para uma terra arrasada. E lá, tomamos consciência de que tudo o que temos é o presente. A vida ganhou caráter de urgência e, portanto, temos que tentar vivê-la da melhor forma.

Meu desejo para todas as viúvas é que mais pessoas não viúvas entendam como nos apoiar. Quero que elas percebam e aceitem que é normal continuarmos a lamentar muito e por muito tempo depois que o funeral terminar e o primeiro mês acabar. A maioria das pessoas some exatamente quando o vazio se estabelece e mais precisamos desse apoio.

Entendo que olhar para nós escancara a ausência do amigo que perderam e assim, os amigos se fecham em seu egoísmo e fogem de nós. Esquecem que a vida deles seguiu enquanto a nossa está paralisada na dor. Não fujam! Fiquem. Ofereçam colo, carinho, um copo d’água, um prato de comida e estejam abertos a ouvir.

Espero que reconheçam e entendam que nossa dor estará presente, de alguma maneira, por toda a nossa vida porque a pessoa que amamos estará irremediavelmente ausente do nosso futuro.

Quero que nos julguem menos. Quando estivermos sorrindo fiquem felizes ao invés de pensar que ainda está cedo para isso. E se estivermos tristes ou chorando, ofereçam seu ombro e sua escuta silenciosa ao invés dos velhos jargões como o tempo vai curar ou logo você vai refazer a sua vida.

Desejo que não digam que sabem ou imaginam o que estamos sentindo, porque só um a viúva é capaz de entender o que a outra está sentindo, mesmo assim sem poder sentir, porque cada uma de nós chora a partida de um amor único e incomparável. Basta que digam, “não imagino o que você está sentindo”.

Espero que entendam que no dia ou na semana de uma viúva cabem todas as estações do ano. Podemos acordar bem e uma hora depois estarmos aos prantos. Viveremos numa montanha russa de emoções até que essa dor se acomode em nosso peito e aprendamos a suportá-la.

Quero que aceitem que falemos com naturalidade dos nossos parceiros, sem se mostrar incomodados, como se ao falar deles estivéssemos trazendo a temática da morte para perto. Não, estamos apenas relembrando a pessoa que amamos e fazendo isso, mantendo-a viva para nós e na memória de todos.

Mas, para ser sincera, sei que aqueles que estão fora desse grupo não conseguem entender aquilo que ainda nunca experimentaram. Há coisas que é preciso viver para entender. E faço aqui a mea culpa, porque eu também não entendia até passar para o lado de cá do muro. Por isso, entendo que eles não conseguem perceber a profundidade de nossa perda.

Portanto, minhas amigas e companheiras desse grupo de sobreviventes, desejo que nos tornemos porta vozes dessa mensagem para todos os que estão de fora. A realidade nos pegou no contrapé, mas podemos usar nossas vozes para que outros não tenham que enfrentar aquilo que enfrentamos. Vamos falar sobre o luto! Só assim daremos sentido à existência dessa data.

E acima de tudo, que possamos enxergar que existe amor, vida e alegria, apesar da dor.

  • R. Barão de Paranapanema, n. 146, Bloco B, Sala 62, Bosque, Campinas - SP
  • (19) 99304-2682 ou (19) 3368-4710
  • contato@acolhecomamor.com.br
  • Devido a pandemia não temos atendimento presencial, somente on-line