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Depoimento Ricardo

Em 2016, em meio a uma tão aguardada viagem para a Espanha para rever amigos queridos, sem motivo aparente minha esposa se queixou de cansaço e não nos acompanhou em alguns passeios. Aquilo não me chamou a atenção, como também não atentei para alguns comportamentos reservados que já vinham se apresentando dois anos antes, no fim de 2014. Pensava “era algo relativo a chegada dos 40 anos”, a vida e o corpo fazendo novos acordos.


Assim que desembarcamos no Brasil em 12 de julho de 2016, após 22 dias de viagem, ao cansaço somaram-se dores que a obrigavam a deitar e descansar, entre intervalos de sessões de guitarra e bateria que fazíamos em nossa casa. Aos 40 anos minha esposa havia descoberto a paixão pela bateria, instrumento que sempre amou e admirou nas bandas de Rock and Roll da adolescência e desde o nosso 1º encontro, eu com 23 e ela com 17 anos.


Em 2016, prestes a completar 23 anos de união e 42 anos de vida,  minha esposa era uma mulher realizada, profissionalmente estabelecida, mãe de nossa filha, terminava um doutorado e evoluía dia a dia como instrumentista, inspirada por John Bonham, do Led Zeppelin, mas que trilhava o estilo e a incrível semelhança de rudimentos com Charlie Watts, do Rolling Stones, de quem se aproximou pela leveza que ele oferecia à música e pelo modo como ambos atacavam os tambores.


Após muitos exames que não determinaram com precisão a causa dos incômodos, os médicos concluíram que uma cirurgia seria necessária para acessar o local das dores. Isso implicou numa mudança de cidade para ficarmos mais perto da família durante a recuperação. A princípio a cirurgia iria corrigir e atualizar uma antiga intervenção a que ela havia se submetido quando tinha apenas 4 anos de idade, na região da vesícula biliar. Os médicos acreditavam numa possível obstrução deste canal após todos esses anos, e que, como da primeira vez, isso resolveria as suas dores. Não foi bem o que ocorreu.

A operação demorou 4 horas a mais do que o previsto, e ao sair da sala de cirurgia, enquanto aguardávamos o trânsito da minha esposa na maca para a UTI os médicos nos deram o diagnóstico de um câncer em estado irreversível. Nossa família, os pais e parentes, nenhum de nós compreendeu naquele momento o que os médicos diziam, não assimilamos a fatalidade evidente, um baque que nos anestesiou. Nós realmente pensávamos que ela se submeteria aos tratamentos, à quimioterapia, e juntos íamos lutar pela cura.

Os seis meses seguintes foram de desencantos e pequenas alegrias, solidariedade e solidão, responsabilidade e abandono. Ela faleceu na cama do hospital, em Abril de 2017, quatro dias após completar 42 anos.

   
Ao olhar em retrospecto, nestes seis meses ela preparou a partida de modo a nos acostumar com a sua ausência, fez de tudo para nos ocupar com pequenas atividades e tarefas, abstrações e tudo que pudesse evitar o confronto com a realidade dos fatos. Havia também a relação curiosa entre ela e os cirurgiões que a tratavam. Um deles tinha um sério problema cardíaco e os dois ficavam apostando quem duraria mais. O humor que surge do inusitado trágico da condição humana.


A partir de então me encontrei num lugar onde só o futuro era possível. Tocar a casa sozinho, cuidar para que nossa filha completasse os estudos, dar amor, fazer amor, ter ou não uma nova parceira, me reservar no luto, desmoronar na depressão e tristeza ou simplesmente apostar em toda e qualquer possibilidade de seguir adiante no que acreditava ser caminho de cura. Mas o tempo não funciona como queremos, apenas porque queremos ele não se vê obrigado a obedecer e nos dar os resultados dos nossos desejos, assim, por capricho. Isso demanda tempo. O luto ainda permanece, embora esteja diferente a cada dia.


Estes últimos cinco anos vivi uma montanha russa de emoções, na falta de uma imagem melhor que simbolize este tempo. Poderia falar dos meus momentos de desespero, da iluminação caridosa e fraterna, ou quem sabe dos prazeres simples da nossa existência, ou ainda das visíveis e invisíveis dores daqueles que estão ao nosso lado. Tudo se tornou muito evidente e transparente, e acredito que de modo permanente é preciso estar preparado para cuidar dessa nova condição que a vida me ofereceu.


O desafio é criar um ser humano de 18 anos, que desde os 14 não tem a mãe na passagem da hora da criança para o mundo adulto. E que também deixou de ter uma referência pela mudança. É um duro desafio a ser vivido, mas o que se há de fazer? Os dilemas são os mesmos de qualquer adolescente, as reações dos familiares mais conservadores também são as mesmas frente à rebelião visceral do jovem, a luta da sensibilidade nova frente ao modo velho, gasto e adaptado. Como fazer para ressignificar os conflitos e harmonizar as demandas, o anseio por liberdade de quem tem uma vida toda pela frente?


São muitas dúvidas e estamos aqui pela vida, não abro mão disso. E sim, é o amor é quem alimenta e põe tudo em movimento, é o amor que cura, redescobri intimamente que tudo isso são coisas comuns não só a quem viveu acontecimentos assim. Hoje penso que  deveriam ser comuns para todos de nós.


Espero em breve voltar a escrever sobre esta fase atual do luto, após 5 anos da sua partida, são grandes as mudanças. É possível transformar para melhor.


Um forte e afetuoso abraço, de todo coração.

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