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Depoimento Mônica

Meu nome é Mônica, fui casada por 8 anos com o Heron e temos uma filha chamada Lívia. Vou contar um pouco da minha história.

Conheci o meu esposo em 2003, na casa de uma amiga em comum. Confesso que não foi amor à primeira vista. Foi até engraçado como tudo aconteceu, pois no início eu não queria de forma alguma namorar com ele, mas algo nele me encantava. Ele era muito alegre, brincalhão e otimista e na época eu havia acabado de sair de uma forte depressão.

Então, eu resolvi “tentar” ver no que daria essa história. Ele era nove anos mais velho do que eu e isto me assustava muito, pois ele vivia falando que não estava namorando para perder tempo, ele queria casar. A cada dia que passava ele me conquistava e me fazia tão bem que acabei nem percebendo quando foi que virou amor.

Depois de dois anos de namoro ficamos noivos, e depois de dois anos de noivado estávamos no altar. Nos casamos no dia 06 de outubro de 2007. Foi o casamento dos sonhos, com tudo que uma noiva tem direito, cerimônia, festa e lua de mel. Não conseguia acreditar em tamanha felicidade.

Nós dois éramos muito diferentes, mas a gente se encaixava perfeitamente. Eu a tímida, ele o extrovertido, eu a razão, ele só emoção e nesta relação equilibrada nós vivemos nosso casamento por 8 anos. Mas, se tinha uma coisa em que a gente era muito parecido era na vontade de passear e viajar. Não parávamos um final de semana em casa. Curtimos muito cada minuto do tempo que vivemos juntos. Acho que no fundinho ele sabia que o tempo dele aqui seria curto demais!

Em 2010, eu resolvi entrar na faculdade. Nesta época ele se mostrou melhor do que já era, me levando e buscando todos os dias ao serviço e à faculdade, fazendo o jantar e sempre vindo me buscar trazendo um lanchinho para mim. Ele era incrível. Se soubesse que eu gostava de uma coisa ele revirava o mundo para me dar.

Em 2012, no meio da faculdade, fizemos uma loucura. Resolvemos que estava na hora deste amor dar fruto e em setembro deste mesmo ano, nasceu a nossa pequena Lívia. Na época, eu me achava louca e perguntava a Deus como daria conta de trabalhar fora, estudar e ter um bebê, mas hoje eu vejo que Deus realmente faz tudo perfeito. Enquanto a mamãe estudava era o papai quem cuidava da Lívia e a cada fase eu agradecia a Deus por ele ter escolhido a melhor pessoa para eu dividir a vida. Ele era companheiro para todas as horas. Tinha momentos em que eu agradecia a Deus por ter superado a depressão e viver tão feliz com a minha família. Me sentia muito feliz, muito completa!

No início de 2015, meu esposo foi numa consulta de rotina e ao fazer os exames de sangue, descobriu uma anemia muito forte, mas até então nós ficamos tranquilos, pensando que seria só tomar umas vitaminas. Mas, ao voltarmos ao médico com mais alguns exames ele nos deixou um pouco mais preocupados e logo pediu um exame da medula. Parece que naquele dia começou a faltar o chão para a gente, mas seguíamos confiantes.

No começo de julho eu peguei o resultado pela internet, fui logo pesquisando e já percebi que os exames não vieram com os resultados esperados. Fui à consulta com ele, pois sabia que aquela não seria uma consulta fácil. Realmente, naquele dia o médico falou que ele estava com Síndrome Mielodisplásica que é um tipo de câncer no sangue e já o encaminhou direto para uma oncologista. A partir daquele dia a cada consulta era uma bomba, a cada exame íamos descobrindo que o caso dele era bem complicado, mas o mais curioso e intrigante era que ele seguia sem sentir nada e sem nenhum sintoma da doença.

Em setembro de 2015 veio a primeira internação, na véspera do aniversário da Lívia. Lembro do desespero dele naquele dia, pois não aceitava ficar longe justo no dia do aniversário dela e nós nem poderíamos imaginar que aquele seria o último em que ele estaria conosco.

Começamos uma busca incessante por um de doador de medula óssea, pois ele teria que fazer um transplante com urgência. Ele foi guerreiro, enfrentou a doença na maioria dos dias com a mesma alegria de sempre, não reclamava, só tinha medo de nos deixar. Eu agradeço a Deus por ele ter permitido que eu o acompanhasse em todas as consultas, estando sempre ao lado dele, ajudando a segurar esta barra. Assim como havia prometido, “na saúde e na doença”.

No início de 2016 a médica nos disse que não poderíamos esperar mais para encontrar o doador e teria que fazer o transplante com o irmão dele que era 50% compatível. Aí começou uma bateria de exames para o transplante. Neste ponto eu já estava tomada pelo medo, sabia que o risco era grande, mas ele sempre falava que se esta era a única forma dele ficar curado ele iria até o final.

No início de março fizemos uma viagem só nós três. Deus já sabia que seria a despedida da nossa família e que dias maravilhosos e felizes nós passamos!

No dia 06 de abril, ele foi internado e seria um período de isolamento total. Não poderia receber visita nenhuma, só eu, minha sogra e meus cunhados que éramos os acompanhantes. Aí começou o sofrimento do meu amor. Eram noites de dor e ânsias, muito mal-estar devido à quimioterapia, mas seguíamos com fé na cura. Ele recebeu a nova medula no dia 19 de abril, mas antes que tivesse a “pega” ele começou a ter dificuldade de urinar, pois o rim dele ficou prejudicado. Colocaram um cateter na perna para hemodiálise, e eu tenho certeza que foi este cateter que trouxe o risco para ele. Toda vez que fazia a hemodiálise dava muita febre e foram dias de angústia e muito sofrimento.

No dia 05 de maio, ele estava muito debilitado e meu cunhado me ligou dizendo que ele teve uma queda na pressão, que o tinham levado para a UTI e que eu fosse para o hospital. Quando cheguei lá, ao encontrar meu cunhado com a cara de acabado percebi que não era só aquela notícia e realmente não era. Ele tinha pegado uma bactéria e em poucas horas ela já tinha praticamente acabado com os órgãos dele. Ele estava sedado e entubado, já não estava mais consciente, mas mesmo assim eu pedi para entrar para vê-lo. E ali, naquela sala fria, eu conversei tanto com ele, agradeci por tudo o que vivemos, por me fazer tão feliz,  por tanto amor, mas mais do que agradecer eu pedi….pedi tanto para ele não me deixar, para ele ser um pouquinho mais forte e voltar para nós!

Naquela noite não consegui deixar aquele hospital. Não podia ficar com ele, mas ficamos ali na recepção, clamando a Deus por um milagre. Na madrugada, a enfermeira nos chamou e meu coração congelou. Sabia que a notícia não seria boa, mas segurei a mão do meu cunhado e fui. Ao olhar no rosto do médico, o Dr. Pedro estava com um olhar de derrotado. Eu já sabia o que havia acontecido, mas eu não queria acreditar. E ele falou “infelizmente fizemos de tudo, mas o seu esposo agora está nos braços do pai”. Nesse instante, parece que se abriu um buraco na minha frente. Eu nunca vou esquecer aquela horrível sensação. Foi o pior momento da minha vida, a dor mais doída que eu senti e eu só pedia para o médico voltar lá dentro e fazer mais alguma coisa, não queria acreditar que não havia mais o que fazer… E assim, no dia 06 de maio de 2016 às 3h18 ele nos deixou.

Não tive coragem de contar para a Lívia, minha irmã cuidou disso para mim. A única coisa que eu lembro é que eu fui capaz de decidir sobre o velório. Fiz questão de só sepultá-lo no dia seguinte, pois eu queria que todos que quisessem, tivessem a oportunidade de se despedir do Heron. Ele era muito querido para ter somente algumas horas de velório e além do mais eu teria mais algum tempo com o corpo dele, mesmo que naquele instante já estivesse sem vida.

Hoje, já se passaram pouco mais de 3 anos e eu confesso que continuo sem rumo, ainda tentando entender os planos de Deus, por que ele me permitiu ser tão feliz e eu tive que devolvê-lo tão cedo? Não consegui ficar no mesmo emprego, na mesma casa, nem na mesma cidade. Minha vida literalmente virou de ponta cabeça e muitas vezes me pergunto se estou fazendo a coisa certa. Tenho muito medo de errar e muito medo de criar uma filha sem o pai, mas vou seguindo da forma que eu vou encontrando para seguir.

Hoje eu só tenho um desejo, que eu aprenda a viver com esta ausência e que eu consiga voltar a ser plenamente feliz com a minha filha, pois sei que este era o maior desejo do nosso Heron.

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