Acolhimento a viúvas e viúvos: seg. a sexta das 08h às 12h
Rua Barão de Paranapanema, n. 146, Bloco B, Sala 62, Bosque, Campinas - SP

Depoimento Cicca Dorini

Eu já era divorciada e conheci o Zhe em 2005 pelo Orkut. Tínhamos muito amigos em comum, por causa da nossa profissão, mas ainda não nos conhecíamos pessoalmente! Eu era atriz e bonequeira e trabalhava com Teatro de Animação. Ele também, além de ser iluminador e diretor de teatro. Veio o Facebook e em junho de 2016, onze anos depois, conversávamos bastante sempre por mensagens. Eu estava me recuperando de uma cirurgia no tornozelo, e por não poder andar, desenvolvi como Artista Plástica um trabalho com Mandalas em aquarela. Ele adorou a ideia, começou a pintar também, já que era artesão. E estreitamos laços.

Agora a conversa era por Whatsapp. Um dia pedi pra ele mandar um áudio, queria ouvir a voz dele. E ele me mandou um áudio imitando várias vozes…que dia feliz e divertido. Marcamos um encontro e eu furei. Eu já tinha 48 anos e ele 54. Apavorada fiquei com medo. Por insistência dele, marcamos um café na semana seguinte 29/07/2016. Fomos a uma padaria 24h em São Paulo. Nos encontramos as 20h para um café e bater papo. Ao olharmos pelas janelas … já eram 11h da manhã do dia seguinte. Uma paixão arrebatadora nasceu naquele dia. E em pouco menos de um mês já estávamos morando juntos. Éramos almas gêmeas.

Dividimos o apartamento com meu filho. Eu, ele e meu filho do primeiro casamento de 25 anos. Que delícia, leitor assíduo trouxe pra minha casa sua biblioteca, que junto a minha completaram mais de 3.000 livros e 150 livros repetidos. Eu também tinha uma filha do primeiro casamento, que morava com o pai. E todos o adoravam.

Ele era calmo, doce, bom de papo e bom nos silêncios. Jamais brigamos ou discutimos. Tudo era resolvido no diálogo. Fazíamos tudo juntos, montamos um ateliê de artes num dos quartos e ali ficávamos horas a criar e a conversar.

Um ano se passou, meu filho se casou e foi morar em Londres. Que perda. Ficamos sozinhos em casa, e a cumplicidade aumentou. Seis meses depois era vez da minha filha: Austrália, lá se foi ela. Outra vez, casa vazia, mas ficamos com a cachorra, a Sophia, que alegrava nossos dias.

Ficamos ainda mais cúmplices e projetos de Arte nasciam todos os dias. Ele cozinhava, dançava, pintava, ria e fazia eu rir, arrumava minha marmita, descascava minha laranja. Eu fazia o bolo dele, pintava e estava no auge do processo artístico.

Três meses se passaram e num sábado à noite depois do teatro (ele fazia a iluminação de um espetáculo para crianças), era 01/09/18. Fizemos planos e conversamos até 3h da manhã. Comemoramos nossos dois anos e um mês de amor eterno, cumplicidade e paixão. Ainda era lua de mel.

Domingo dia 02/09/18 tomamos café juntos, conversamos mais um pouco, ele leu seu livro e saiu às 12h pra trabalhar. Ele não dirigia e eu quis levá-lo de carro. Ele disse que não. Estava tranquilo e pediu pra eu descansar. Saiu 12h15, às 13h recebi uma ligação dele, mas não entendia, o celular cortava muito. 13h05 uma amiga ligou dizendo que ele tinha passado mal no ônibus e estava indo pra Santa Casa de Santo André. Não sei o que senti. Mas desci 10 andares de escada, correndo, peguei o carro e as 13h20 cheguei no hospital.

O médico insensível de braços cruzados deu a notícia: Sinto muito, fizemos de tudo. Desmaiei. Ainda no chão vi o mundo cair. Ele enfartou dentro do ônibus. Eu, sem meus filhos e a agora sem ele, sem minha alma gêmea. Dois anos e um mês de amor e cumplicidade acabaram ali. Hora da morte 13h10. Eu me despedi dele as 12h15.

Foi cremado, joguei suas cinzas no mar. E o mundo desmoronou. Os amigos sumiram. Ninguém queria falar sobre morte, luto muito menos. Meus filhos do outro lado do oceano e eu sozinha, no ano que completei 50 anos aprendi a falar: sou viúva. Que dor incomensurável. Que falta. Que vazio. Entro no ateliê e sinto o cheiro dele ainda.

Um ano e nove meses se passaram. Eu voltei agora a criar, sempre junto à foto dele, sorrindo pra mim. E a grande pergunta: por quê? Por que ele se foi com 56 anos? Uma vida pela frente, cheio de planos. Zhe Gomes MEU TUDO era assim que eu o chamava. Ele me chamava de Sapita…a Cicca Sapita. A história de amor continua na minha imaginação relembrando nossas histórias. Mas o vazio ainda é imenso.

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