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Depoimento Anônimo de Recife

Eu e meu marido nos conhecemos por amigos em comum, a paquera só rolou quando eu estava fora de Pernambuco de férias. Nos casamos em uma cerimônia linda em 5 de abril de 2014.

Ele era médico, e depois da lua de mel, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde seria sub-chefe na equipe de um renomado cirurgião cardíaco. Eu fiquei na ponte aérea durantes 4 anos, iria me mudar de vez para RJ no fim desse ano.

Em 13 de fevereiro de 2018, um câncer levou meu marido. Ele não existe mais. Como é que pode?

E desde então, eu tenho seguindo em frente, talvez felicidade seja justamente isso. Seguir em frente, depois que a gente se despedaça ser forte e não retroceder tornou-se minha única opção nessa caminhada.

José era o amor da minha vida. É o amor da minha vida. Não tivemos filho. Suas coisas ainda estão do mesmo jeito ao lado das minhas. Suas roupas ainda ocupam o mesmo lugar no guarda roupas.

É tudo muito sufocante.

Nem nos meus piores pesadelos poderia imaginar, que casaria e 4 anos depois, estaria no saguão de um aeroporto esperando o avião da FAB para trazer os restos mortais do meu marido.

Depois do último: “boa noite, eu te amo” um câncer havia levado ele.

Meu marido nunca deixou um whatsapp sem resposta. E era eficiente no feedback. Desligamos o celular pela última vez às 9h21 e às 9h45 minutos ele foi socorrido. A primeira cirurgia e o coma às 10h03. Calculem o que acontece na vida de vocês num intervalo de 43 minutos.

Por mais que a verdade estivesse estampada ali, na minha cara, estava um dos homens que eu mais considerava imbatível. Nesse caso, especificamente, pela saúde e pelo vigor. Porque ele era sinônimo de vida. Esse cara não adoecia. “Eu sou corpo fechado, Maria!”. Só me lembrava dessa frase do meu marido, que, em quase cinco anos de relacionamento, eu nunca vi pegar sequer uma gripe. Então esperei que tivesse apenas uma cirurgia de urgência e depois recuperação total.

Eu estava sem som e imagem com aquilo tudo. Eu estava em Recife, a trabalho, quando recebi a ligação de um amigo. Rapidamente comprei uma passagem, entrei no carro com Carlos, cunhado de José, para irmos ao aeroporto. No caminho a ligação que mudou tudo. José estava em coma após duas paradas cárdio respiratória, ainda na mesa de cirurgia. Não havia mais jeito, foi um soco no meu estômago. Aí eu gritei “Nãaaaaaao!” E não sei como não quebrei o punho ao socar o vidro do carro. Fui  para São Paulo como se estivesse anestesiada, sem acreditar em tudo que estava acontecendo.

Fui direto para o hospital. E lá, entrando sozinha, em uma das salas entulhadas de gente incrédula, amigos do hospital, muda, com lágrimas que não paravam de cair…. Eu ouvi a única notícia que faltava para cair a ficha. José se foi.  Fui ao chão e desabei. Choro mudo.

Àquela altura todos os meus amigos de São Paulo já estavam reunidos no nosso flat. Me abraçavam e choravam, dizendo: “Me diga que não é verdade!”. Era a notícia que eu mais queria desmentir na minha vida, meus amigos! Eu mandei uma única mensagem naquele momento, às 13h:35 a pastora que nos casou. “Amiga, meu marido morreu. Hoje eu estou acabada, mas minha fé não se abala”.

Amor de muitos é o que eu recebo de lá pra cá. Uma corrente de amor e solidariedade de gente amiga, de gente anônima. Nesse período, as coisas vão se encaixando. Mas tem que ter aquela dose extra de força de vontade.

O clichê que Deus dá o frio conforme o cobertor, eu ouvia muito da minha mãe. E vivencio todo dia. As coisas são como têm que ser. Ok! Encare Maria. E não adianta buscar explicações, senão você congela no tempo. Paralisa.

Tenho lembranças “partidas” do velório. Foi tudo “de muito”. Populares, autoridades, policiais, familiares e amigos que não paravam de chegar. Eram tantas coroas de flores… E nelas eu lia José em caixa alta. “Não aceito”, eu mentalizava. Hoje minha frase é: “Ele não existe mais. Como é que pode?”. Mas nada mudou: eu não aceito. Nunca aceitarei. Mas você coloca isso numa caixa secreta dentro do peito e vai viver.

Continuo morando no mesmo apartamento que moramos há 4 anos, desde do nosso casamento. O carro dele continua na garagem ao lado do meu. Suas roupas ainda ocupam espaço no guarda-roupas. Na nossa cabeceira de cama o porta retrato de uma foto nossa no Arpoador no Rio de Janeiro. Na sala, suas coisas, que incluem o diploma da graduação se misturam na decoração, na nossa biblioteca particular, sua parte do lado esquerdo do cômodo, que era “o lado do coração” como ele mesmo dizia, estava seus infinitos livros de medicina, sua organização era exemplar, e a foto do dia de sua colação de grau. Um dia desses, abri sua parte no guarda roupas e vi seu jaleco, com seu estetoscópio no bolso. Lembrei de todo amor e dedicação que ele empenhou na profissão que havia escolhido. Ser médico era o dom de José. A casa continua a mesma. Agora sem ele.

Eu sinto uma saudade estúpida de que nunca o terei de volta. Do que me foi arrancado. Domingo de Páscoa de 2018 faríamos seis anos de casados. Brinquei com o José na minha oração lá na pedra do Arpoador (RJ), para onde me refugiei, e disse: “Você me deixou só. Agora resolva minha vida…”. E chorei sorrindo.

Atravessar o que eu atravesso criou em mim uma película protetora invisível aos olhos. Mas que eu sinto. Vejo os sinais. Como se ele estivesse cuidando de mim.

OBS: Os nomes utilizados no texto são fictícios para preservar o anonimato das pessoas que vivenciaram está história.

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