Acolhimento a viúvas e viúvos: seg. a sexta das 08h às 12h
Rua Barão de Paranapanema, n. 146, Bloco B, Sala 62, Bosque, Campinas - SP

Depoimento Ana Paula

Eu e Clayton começamos a namorar em 1997 e nos casamos em 2004. Foram 18 anos juntos.

Dia 01/12/2015, um dos dias que não sai da minha cabeça. Clayton havia feito o exame mielograma no dia 30/11, infelizmente bem no dia do meu aniversário e estávamos esperando o exame ficar pronto. No dia 02, me lembro que nos levantamos, fui lavar roupas e planejávamos fazer compras à tarde. Porém, minha irmã me ligou e disse que a médica pediu para o Clayton ir ao consultório.

Ele, mais que depressa pediu para eu olhar na internet o resultado do exame. Quando olhei deu 90% de blastosm e quando coloquei o resultado no Google, na hora apareceu leucemia mieloide aguda. Minha garganta fechou e fui tomada por um desespero inicial, mas mantive a calma e engoli o choro. Precisava ser forte para dar esta notícia para ele. Precisava ser forte para cuidar também do bebê que estava dentro de mim, pela minha filha de 2 aninhos, e pela minha filha de 9 anos! Nesse momento, alguém bateu no portão. Era a mãe dele e um amigo para levar ele para internação. A mãe tentou segurar o choro e esconder, mas eu disse que ele já sabia e estava bem e que ele tinha fé suficiente pra enfrentar isto. Vamos em frente!

Mas, no fundo, eu estava anestesiada. Fomos para o consultório onde a médica disse o que a gente já sabia e o encaminhou para internação. Deu muita esperança de cura. Foi tudo rápido e saímos dali direto para o hospital. Lá ele foi encaminhado para o quarto, eu tentando ser forte acabei passando mal e tendo que ser medicada com a pressão alta. Ficamos nós dois no mesmo andar do hospital, porém eu vim embora no mesmo dia e ele ficou!

Enfim foram longos 14 dias. Ele estava bem e me lembro de ter colocado comida na boca dele por mimo mesmo. Ele queria ser paparicado, gostava disto, e tinha tanta fé de sair bem daquele lugar. Eu e a Giovanna, orávamos todos os dias declarando que ele estava curado, e iria voltar pra casa.

Não houve tempo de despedida, não houve tempo do último pedido, o Hospital não avisou que ele tinha piorado, só avisou depois que ele tinha falecido. Porém ele se foi amando a mim e às crianças e pra ele não existia esposa melhor que eu e nem filhas melhores que as dele.

Eu não tenho remorso. Disse tudo que queria e fiz por ele tudo que eu podia fazer. Lembro que o único dia que ficou triste foi no dia 14 que ele foi para o CTI e lá não podia ficar com o celular. Ele me ligava o dia todo, enfim vim embora do hospital abalada. No entanto, tinha deixado ele bem. A médica ainda falou que ele ficaria ali até estabilizar, umas 24 horas somente.

 Lembro muito deste dia. Cheguei em casa e não tinha uma gota de água e tive que dormir sem tomar banho. Às 5:50 da manhã meu telefone tocou. Era do hospital pediram pra ir e levar documentos dele. Eu tremia muito. Liguei para meu cunhado me levar, até mobilizar as pessoas pra ficar com as crianças, eu tomei banho, mas meus dentes não paravam de bater. Pedi calma a Deus, e na mesma hora me acalmei.

Chegando no hospital, um médico muito grosseiro me deu a notícia sem se quer um preparo mesmo sabendo que eu estava grávida. Eu não acreditei, fiquei inconformada, queria vê-lo. Em seguida, me chamaram pra vê-lo. Ele estava no mesmo lugar que eu tinha visto vivo pela última vez, mas enrolado em um lençol. Coloquei a mão sobre a testa dele estava quente. Não acreditava na morte. Fui para casa da minha irmã, em choque, na esperança de receber uma ligação, dizendo que seu coração tinha voltado a bater, mas pelo contrário só recebia visita de consolo e  pedido para escolher a roupa que ele usaria no velório, pedido de documento para fazer o atestado de óbito, e assim foi .

Passei o dia deitada na esperança de tudo mudar, porém quando às 22:00h, horário que estava marcado para começar o velório, me levantei e fui. Chegando lá ainda havia esperança dele não estar lá, mas quando eu vi tantos amigos e familiares as pernas não aguentaram precisei sentar e ter força e ver para acreditar. Eu ali naquele cemitério e as minhas filhas achando que teriam somente uma noite do pijama ao lado das primas.

Me recordo de uma frase triste que meu sobrinho falou, as crianças não sabiam o que estava acontecendo. Ao ver meus irmãos e outros sobrinhos já maiores chorando, o meu sobrinho de 7 anos disse “nossa está todo mundo chorando e neste momento começou a chover e ele disse até Deus está chorando. Ouvi isto e me derramei em lágrimas. Então ele foi sepultado.

A vida voltava ao normal, apesar da minha dor, as contas chegavam, minhas filhas tinham que comer e juntei meus caquinhos e fui dar entrada na pensão. Ele faleceu dia 15/12 marcaram para eu dar entrada em abril.  INSS não queria saber o que iríamos comer, beber ou vestir nestes 4 meses. Chegando o Natal minha filha Giovanna pediu a Deus que ele deixasse o pai vir para nossa casa pelo menos no Natal. Isto partiu meu coração.

Enfim, foram muitas as humilhações que eu sofri, tantas perguntas sem resposta, tanta raiva, tanta dor e às vezes revoltas, mas encontrei várias pessoas que me ajudaram e ajudam até hoje, e o amor de Deus que é tudo para mim. Minha vida mudou muito, fui forte pelos meus filhos pelo meu bebê que ainda estava no ventre, e o tempo foi passando a dor aumentando, para quem não sabe um dos sintomas da leucemia é mancha roxa e no caso do Clayton ela surgiu no peito. Sempre me perguntaram se era genético e se eu tinha feito exames nas meninas. Não é genético, e mesmo assim passei o ano de 2016 fazendo exames de sangue a cada nova manchinha roxa que surgia. Coisa da minha cabeça que ficou muito abalada.

Graças a Deus estamos bem e com saúde, e a gente vai percebendo qual caminho certo a seguir. Meu esposo me faz muita falta e não adianta as pessoas dizerem eu imagino, porque só quem passa sabe. Hoje estou aqui vestida com uma armadura, mas meu coração está ferido. Mesmo assim me sinto feliz e grata a Deus por tudo que tenho por tudo que sou, principalmente pela vida dos meus filhos. A lição que eu tirei disto tudo é que a gente se engana muito com pessoas. Deus dá uma força imensa no momento certo. Ele nunca te abandona. Confie nele, se entregue a ele todo seu coração e tudo vai dar certo. E pode ter a certeza de que sempre terá alguém que sofre mais que você. Sempre terá um problema maior que o seu. A diferença é como cada um lida com os seus.

Tenham fé e força tudo passa!

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