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Balanço de uma Viuvez

Por Marina Castellani

Perguntaram-me como era ser viúva depois de mais de dois anos e meio do acidente que tirou a vida do meu marido abruptamente.

Fiquei tentando refletir. Não existe mais revolta e a compreensão que a vida é finita e que os ciclos terminam, querendo a gente ou não, agora fazem mais sentido.

 Se no início a palavra viuvez vinha com gosto amargo, cheia de lembranças de sonhos interrompidos, geralmente com lágrimas nos olhos e uma dor que não cabia no peito. Agora realmente é meu estado civil. Vem acompanhada da responsabilidade de conduzir os filhos sozinha. Que não sou solteira, pois tenho história: amei profundamente e fui amada na mesma intensidade. E que formei, além de uma família, uma parceria eficiente e simbiótica com uma pessoa que não está mais ao meu lado.

Descobri uma força que não sabia ter, e a importância relativa das coisas mudou sensivelmente. Se pudesse fazer uma metáfora, sou como um papel reciclado artesanal, que após passar pelo liquidificador, começa a retornar a forma de papel. E se nos primeiros meses eu me perguntava quem sou eu sem ele, ou quais eram os hábitos que realmente eram meus, ou ainda quais valores permaneceriam intactos ante a dor de passar por uma tragédia. No momento, o sorriso vem mais fácil a compreensão que a vida é uma dádiva e não um fardo e que somos seres adaptáveis, muito além do que poderíamos imaginar.

É claro que existe a saudade. Momentos em que lamento a ausência da pessoa tão querida. Sinto um pouco de tristeza quando as vezes quero me referir ao meu antigo parceiro com naturalidade e a maioria das pessoas se sente desconfortável, pois falar dele relembra que a vida é finita e da sua própria mortalidade. Evita-se se falar da morte, como se a ausência das palavras sobre a finitude, livrasse as pessoas do ¨castigo¨ que elas pensam que a morte é.

Hoje, após quase três anos de viuvez, eu ainda reorganizo a vida e busco novos sonhos, (ou ainda a concretização dos antigos). Percebi que preciso buscá-los no meu âmago e não somente ir vivendo como se os dias não tivessem fim. Não posso tão pouco recriar a vida que eu vivia antes, essa infelizmente não existe mais e não sou a mesma pessoa. Se no começo eu me sentia como uma mulher de terceira idade, só aguardando a morte para reencontrar a paz, depois de me sentir perdida como uma adolescente, agora, sou eu mesma, uma mulher com a minha própria idade, mais flexível, mais humana e que tem mais leveza. Busco aproveitar o quanto posso o momento, pois esse ciclo também terá fim. E outros virão…

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